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O que se sabe sobre o acordo de Trump pela Groenlândia

Republicano diz ter chegado a um consenso com o líder da Otan, Mark Rutte, mas termos do acordo não foram divulgados e seguem sob especulação

US president Donald Trump leaves the Congress center during the World Economic Forum (WEF) annual meeting in Davos, on January 21, 2020. (Photo by Fabrice COFFRINI / AFP via Getty Images) (Getty Images)

US president Donald Trump leaves the Congress center during the World Economic Forum (WEF) annual meeting in Davos, on January 21, 2020. (Photo by Fabrice COFFRINI / AFP via Getty Images) (Getty Images)

Publicado em 24 de janeiro de 2026 às 08h01.

Última atualização em 24 de janeiro de 2026 às 08h07.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou, nessa quarta-feira, 21, que haveria agora uma “estrutura para um acordo futuro no que diz respeito à Groenlândia”. O anúncio veio como uma reviravolta e uma surpresa após semanas de tensões, incluindo ameaças do uso de força para tomar a ilha, um território semiautônomo da Dinamarca, um aliado da Otan.

Mesmo assim, todos os envolvidos, inclusive Trump, se mantiveram em silêncio sobre os detalhes do suposto pacto, que, até onde se sabe, permanece um acordo verbal, sem documentos físicos.

Allison Hart, porta-voz do secretário-geral da Otan Mark Rutte, afirmou que durante as negociações ele "não propôs qualquer compromisso com a soberania durante seu encontro com o presidente em Davos". Quando questionado diretamente por repórteres, Rutte apenas se referiu a uma postagem de Trump em sua rede social Truth Social, que por si só não revela detalhes:

“Após uma reunião muito produtiva com o Secretário-Geral da OTAN, Mark Rutte, definimos as bases para um futuro acordo relativo à Groenlândia e, na verdade, a toda a região do Ártico. Essa solução, se concretizada, será excelente para os Estados Unidos da América e para todos os países da OTAN”, escreveu o republicano.

Trump prosseguiu, anunciando que não imporá mais as tarifas ameaçadas, antes de concluir adicionando que “o vice-presidente JD Vance, o secretário de Estado Marco Rubio, o enviado especial Steve Witkoff e outros, conforme necessário, serão responsáveis ​​pelas negociações — e se reportarão diretamente a mim”.

Quando a CNN questionou Trump diretamente, o presidente pausou e evitou a pergunta, dizendo apenas que “é um acordo para o longo prazo”. Disse que é “infinito” e “para sempre”.

Por sua vez, a administração dinamarquesa se diz disposta a negociar qualquer coisa, “menos nossa soberania”, posição apoiada pelo governo groenlandês, que adiciona também não saber dos detalhes sendo negociados. “Não sei o que consta no acordo, ou no pacto, sobre o meu país”, disse Jens-Frederik Nielsen, premiê da Groenlândia.

Redundância? O acordo de defesa da Groenlândia de 1951

Consulado americano em Nuuk, capital da Groenlândia.

Consulado americano em Nuuk, capital da Groenlândia. (Alessando Rampazzo/AFP)

No epicentro da narrativa de Trump, preocupações com a segurança do Ártico são a maior justificativa para a anexação da Groenlândia. Segundo ele, somente os EUA seriam capazes de proteger a ilha, citando presença de embarcações e submarinos russos e chineses na região, uma afirmação que é altamente contestada.

Todavia, um acordo de 1951 pela proteção da Groenlândia, conhecido apenas como Acordo de Defesa da Groenlândia (Greenland Defense Agreement), que está em vigor há mais de 70 anos, já permite a presença de tropas americanas na ilha por tempo indefinido.

De fato, todas as informações que chegam à mídia parecem familiares e já cobertas pelo pacto de 1951.

Segundo apuração da CNN, o acordo pode trazer os seguintes pontos:

  • Envolve discussões sobre a atualização do acordo de 1951, que foi revisto pela última vez em 2004;
  • Trump afirmou que isso permitiria "acesso total" para fins de defesa – incluindo a instalação do sistema de defesa Domo Dourado, semelhante ao Domo de Ferro de Israel;
  • O acordo atualizado poderia incluir disposições específicas proibindo Pequim e Moscou de operar na Groenlândia, sugeriu um porta-voz da Otan;
  • Também parece envolver um papel ampliado da Otan na Groenlândia;
  • Há sinais conflitantes sobre se o acordo inclui maior acesso dos EUA aos minerais da Groenlândia, o que Trump também mencionou como prioridade.

O tratado original já permitia que os EUA “exercessem jurisdição sobre suas áreas de defesa na Groenlândia”, e, enquanto não violasse diretamente a soberania dinamarquesa, o país também poderia melhorar e desenvolver essas áreas, instalar e fazer a manutenção de equipamentos, funcionários, correios, lojas de comissariado e controlar as idas e vindas de soldados, embarcações e aeronaves livremente entre as bases de defesa.

O acordo diz até mesmo que as leis da Dinamarca não poderiam ser utilizadas para barrar a entrada ou saída de funcionários e suas famílias dessas zonas.

Quando questionado sobre o acordo de 1951 em uma entrevista com o The New York Times, Trump manteve suas ambições de posse, dizendo:

“Porque é isso que eu sinto ser psicologicamente necessário para o sucesso. Acho que a propriedade te dá algo que você não consegue, seja por meio de um contrato de arrendamento ou de um tratado. A propriedade te dá coisas e elementos que você não consegue apenas assinando um documento, te dá uma base sólida.”

Outras opções

groenlândia

Países europeus reagiram às ameaças de tarifas feitas por Donald Trump envolvendo a Groenlândia. Na foto, manifestantes seguram placas que dizem: "A Groenlândia não está à venda!" (ALESSANDRO RAMPAZZO / AFP)

Segundo uma apuração do The New York Times, citando oficiais anônimos próximos às negociações, revela que o anúncio do republicano veio pouco depois de discussões sobre possíveis concessões territoriais da Groenlândia para bases americanas, onde os EUA teriam soberania.

As conversas ocorreram em Bruxelas entre importantes oficiais militares de países membros da Otan.

As fontes disseram que Mark Rutte buscou um consenso essa semana, apesar de não saberem com certeza se a ideia de pequenos bolsos de soberania americana na ilha realmente faz parte dos acordos.

Dois dos oficiais disseram que a ideia teria sido embasada no que ocorre no Chipre, onde certas bases militares britânicas são consideradas territórios soberanos do Reino Unido, desde a independência da nação insular em 1960.

Mas, novamente, permissões semelhantes já existem nos termos do tratado de defesa de 1951.

Outras possíveis concessões supostamente envolvem mais acesso às terras raras, minerais abundantes na Groenlândia e usados em diversas aplicações tecnológicas. O acesso às terras raras, vitais para projetos militares, vem sendo fortemente controlado pela China. Mesmo assim, sob camadas de gelo e neve, minerá-los pode ser uma tarefa extremamente difícil.

Até republicanos estão confusos sobre as intenções de Trump na Dinamarca, e por quê o presidente recursou à coerção e ameaças:

“Ainda não ouvi desta administração nada do que precisamos da Groenlândia que este povo soberano já não esteja disposto a nos conceder”, disse o senador republicano pelo estado do Kentucky Mitch McConnell.

Apesar do suspense, um documento detalhando todos os termos específicos desse novo acordo deve sair depois da próxima reunião trilateral entre os EUA, a Dinamarca e a Groenlândia, que ocorre na próxima semana.

Mas, mesmo assim, o custo para chegar até aqui foi alto: ameaças comerciais e militares amarguraram laços importantes entre tradicionais aliados, em um esforço que, apura a CNN, poderia ter sido feito de maneiras mais pacíficas e diplomáticas.

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