O que Birman e Jatahy levaram em conta ao dividir espólio da Azzas 2154
Separação segue as especialidades dos dois empresários e resolve disputa sobre marcas, mas deixa problemas operacionais para ambos; Troca entre Reserva e Hering ajuda a explicar desquite


Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHT
Publicado em 2 de setembro de 2026 às 16:40.
Última atualização em 3 de setembro de 2026 às 15:18.
A divisão da Azzas 2154 entre Alexandre Birman e Roberto Jatahy foi desenhada menos como uma repartição de marcas e mais como uma tentativa de devolver cada empresário ao tipo de negócio em que construiu sua trajetória. Segundo pessoas envolvidas na negociação ouvidas pelo EXAME Insight, a divisão foi considerada a mais natural do ponto de vista operacional.
Birman construiu sua trajetória principalmente em calçados e bolsas, com marcas como Arezzo e Schutz e uma operação com forte componente de distribuição B2C. Jatahy, por sua vez, fez do Soma uma das principais plataformas brasileiras de moda feminina, com uma dinâmica mais ligada à gestão e construção de marcas voltadas diretamente à consumidora.
Birman ficará à frente do conjunto de negócios ligado à Arezzo&Co, como Arezzo, Schutz, Anacapri, Vans, Alexandre Birman e Carol Bassi. Jatahy comandará a operação formada em torno das marcas de moda feminina do antigo Grupo Soma, como Animale, NV, Maria Filó, Cris Barros, Reserva, Oficina e Foxton.
O R da questão
A divisão respeitou quase integralmente as estruturas dos grupos antes da malfadada fusão, concluída em 2024. A exceção é a Hering, que Birman sempre quis — e agora levou —, e a Reserva, que Birman também queria, mas que agora faz parte do quinhão da Soma. Não se pode ter tudo.
Com Jatahy, a Reserva terá pela frente uma discussão de posicionamento. No portfólio da Soma, a Foxton disputa um território próximo em público, produto e faixa de preço. A Azzas tentou explorar as duas de forma mais integrada, inclusive com iniciativas multimarcas, mas o modelo não ganhou a tração esperada. A avaliação de pessoas próximas ao negócio é que dificilmente as duas poderão continuar indefinidamente com propostas tão semelhantes.
Apesar disso, a operação passou nos últimos meses por uma integração que reuniu Reserva, Oficina e Foxton e da qual a companhia esperava adicionar cerca de R$ 80 milhões ao EBITDA em 2026 e produzir um efeito recorrente de R$ 116 milhões a partir de 2027. A integração operacional não eliminou a discussão sobre a sobreposição entre as marcas, mas criou uma estrutura comum que Jatahy preservou.
Foi justamente uma tentativa de Birman de alterar esse desenho e aproximar a Reserva da Hering que levou a disputa entre os sócios para fora da companhia, em maio. A marca fazia parte do Projeto 021, estrutura baseada no Rio de Janeiro que reunia a operação de moda masculina sob a gestão de Jatahy.
Birman, na condição de CEO da Azzas, decidiu alterar essa estrutura e retirar a Reserva do núcleo carioca, com a intenção de aproximá-la da Hering no Sul. Havia um racional industrial para a mudança: a Hering tinha capacidade produtiva que poderia ser aproveitada pela Reserva e a aproximação das duas marcas fazia parte da visão de Birman para extrair sinergias do portfólio. Para Jatahy, porém, desmontar uma operação que acabara de ser integrada colocava em risco os ganhos que já estavam incorporados ao planejamento da companhia. A briga foi parar na Justiça.
Problema básico
Do outro lado da divisão, Birman fica com um ativo que persegue há anos, mas cujo desempenho recente ainda exige trabalho. A Hering interessava à Arezzo desde antes da fusão com o Soma porque poderia acelerar a transformação de uma companhia essencialmente de calçados e bolsas em uma plataforma mais ampla de moda. Além de uma marca de alcance nacional, a Hering trazia centenas de lojas, exposição a um público mais amplo e uma estrutura industrial que poderia ser aproveitada por outros negócios do grupo. A Arezzo chegou a tentar comprá-la em 2021, mas perdeu a disputa para o Soma.
As tentativas de aproximar a Hering de outras marcas e explorar uma operação mais integrada tiveram dificuldades, e a marca chega à separação ainda no meio de um processo de recuperação. A Azzas vinha cortando vendas de menor rentabilidade, promoções e estoques para recuperar margens e geração de caixa, uma limpeza que cobra seu preço na receita no curto prazo.
Vínculos que restam
A separação não rompe todos os vínculos entre os dois grupos. Depois da reorganização, Birman terá 32,13% da Arezzo&Co e conservará uma fatia minoritária de 6,18% da Soma. Jatahy, por sua vez, ficará com 25,95% da Soma, mas não terá participação relevante na Arezzo&Co. Jatahy, inclusive, já tem planos para comprar a participação minoritária de Birman na Soma assim que recompor o caixa. Isso será feito aos poucos.
Além disso, os dois continuarão ainda ligados pela Farm, que será 57,4% da Arezzo&Co e 42,6% da Soma. Não por muito tempo, com sorte. O ativo está à venda em processo tocado pelo Morgan Stanley.
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Pedro Gil
Editor do Exame INSIGHTJornalista com mais de 10 anos de experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pelas redações de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico, e CMA. Contato em pedro-b.gil@exame.com
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