Logo Exame.com
ExclusivoMercados

O argumento do Bradesco para evitar debandada nos fundos da Gávea

Asset diz que manterá mandato dos multimercados e aposta em diversificação, equipe e processo para substituir a gestão associada a Arminio Fraga

Ana Rodela, diretora de investimentos da Bradesco Asset, (Imagem gerada com IA/Exame)
Ana Rodela, diretora de investimentos da Bradesco Asset, (Imagem gerada com IA/Exame)
Letícia Furlan

Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Publicado em 7 de agosto de 2026 às 07:00.

A transferência dos fundos multimercados da Gávea Investimentos para a Bradesco Asset coloca um novo desafio para a maior gestora privada do país: convencer investidores de que a estratégia pode sobreviver sem a principal figura que marcou a casa por mais de duas décadas, Arminio Fraga.

A Gávea anunciou, no início de agosto de 2026, o encerramento da gestão de recursos de terceiros da família de fundos Gávea Macro, após 23 anos de atuação. A proposta é transferir a administração e a gestão dos veículos para a Bradesco Asset, em uma operação que ainda depende da aprovação dos cotistas em assembleia.

Agora, a gestora do Bradesco tenta evitar uma saída em massa de investidores que estavam nos fundos pela reputação construída pela Gávea e pelo histórico de Arminio, ex-presidente do Banco Central e um dos nomes mais conhecidos do mercado financeiro brasileiro.

Segundo Ana Rodela, diretora de investimentos da Bradesco Asset, o objetivo é preservar as regras de risco e as classes de ativos já estabelecidas. “Um contrato de um gestor com cotista é, na verdade, um contrato de risco. O cotista diz qual é o nível de risco que está confortável em estar, qual mercado ele quer operar. Então é muito importante que a gente não mude essa característica do fundo”, disse à EXAME.

Enquanto a Gávea construiu sua reputação em torno de uma liderança intelectual muito associada a Arminio Fraga e ao seu processo de leitura macroeconômica, a Bradesco Asset pretende apresentar uma estrutura mais coletiva, com maior distribuição de risco entre diferentes profissionais.

“Tem investidores que eventualmente estão no fundo pela pessoa específica. Essas pessoas podem realmente querer sair”, admite Rodela.

Esse é justamente um dos pontos levantados por analistas. Para Luciana Seabra, analista e planejadora financeira da Indê Investimentos, uma gestora de fundos é um negócio “personalíssimo”.

“Quando as principais pessoas saem, você não fica no fundo esperando para ver, você sai”, opina Seabra.

O argumento da Bradesco Asset

O principal argumento da Bradesco Asset para manter os investidores nos fundos é justamente que a estratégia não depende de uma única pessoa, mas de um processo estruturado de investimento. A gestora afirma que pretende preservar o mandato original dos veículos, mantendo as classes de ativos e os níveis de risco acordados com os cotistas.

Segundo Rodela, a diferença estará principalmente na forma de execução da estratégia. Enquanto a Gávea ficou conhecida por uma gestão mais associada à visão de seus principais gestores, a Bradesco Asset aposta em uma estrutura com maior diversificação de teses e participação de diferentes profissionais.

A executiva explica que o objetivo é evitar que uma única aposta tenha peso excessivo no desempenho do fundo.

“A ideia aqui é não concentrar muito o fundo em nenhuma estratégia específica. A gente nunca tem uma estratégia extremamente dominante em relação às outras no fundo”, diz.

Para sustentar esse modelo, a Bradesco Asset destaca sua estrutura dedicada aos multimercados. São oito gestores e sete economistas, além do apoio de outras áreas da casa. A gestora também afirma ter cerca de R$ 23 bilhões sob gestão na classe de multimercados.

Na visão de Rodela, o cenário atual favorece uma gestão mais distribuída. Ela argumenta que eventos recentes, como mudanças geopolíticas, guerras e avanços tecnológicos, alteraram as relações históricas entre ativos e aumentaram a dificuldade de estratégias muito concentradas.

“Ter aquela visão de médio e longo prazo, com uma posição estrutural muito grande dentro do seu fundo, e dar tempo ao tempo para essa tese se materializar não tem sido a melhor experiência para o investidor, porque esses eventos disruptivos acontecem e muitas vezes mexem nas correlações históricas”, afirma.

A alternativa defendida pela gestora é combinar diferentes teses com regras mais rígidas de controle de risco.

“Ter um controle bem focado nos stops, com regras rígidas de onde você reduz aquela posição e onde você encerra aquela posição, é importante porque a experiência para o cliente é muito dolorida quando acontece uma perda muito grande”, afirma.

Segundo a diretora, a aposta é que essa combinação entre diversificação e disciplina de risco seja mais resiliente no ambiente atual.

Tendência natural de um mercado saturado

Para a Bradesco Asset, a mudança na Gávea também reflete um movimento mais amplo de consolidação da indústria de fundos multimercados.

A avaliação da gestora é que o setor passa por uma fase de pressão, combinando juros elevados, menor apetite por risco e dificuldade de algumas casas em entregar retornos consistentes em um ambiente mais complexo.

Segundo Rodela, eventos extremos tornaram mais difícil o funcionamento de estratégias baseadas em grandes posições estruturais. “A indústria tem sofrido, em parte, porque esse modelo mais concentrado é difícil de entregar bons resultados no mercado como tem estado”, afirma.

Além do ambiente macroeconômico, a executiva aponta uma questão estrutural: o número de gestoras no Brasil é elevado em relação ao tamanho do mercado.

“O Brasil tem muito gestor de fundo. A gente tem mais gestoras de fundos de investimento do que os Estados Unidos. Então, a nossa visão é de que esse mercado ainda vai se consolidar mais”, diz.

Na avaliação da Bradesco Asset, a gestão de recursos é uma atividade que exige escala. Equipes de investimento, tecnologia e estruturas operacionais têm custos que não diminuem na mesma proporção quando uma gestora perde patrimônio.

“Esse é um negócio muito de escala. Existe um tamanho mínimo de equipe e estrutura para você ser uma gestora de investimentos. Conforme vai enxugando, você tem várias casas com pouco patrimônio líquido, junta tudo isso e acaba tendo que otimizar mesmo”, afirma.

A consolidação, segundo a executiva, já ocorreu em outros segmentos do mercado financeiro e tende a avançar também entre os multimercados. Para casas maiores, como a Bradesco Asset, movimentos de sucessão e integração de equipes passaram a fazer parte das oportunidades de crescimento.

Para quem decide. Por quem decide.

Saiba antes. Receba o Insight no seu email

Li e concordo com os Termos de Uso e Política de Privacidade

Letícia Furlan

Letícia Furlan

Repórter de Mercados

Jornalista formada pela Faculdade Cásper Líbero e pós-graduada pela Fundação Getulio Vargas, foi repórter de negócios, carreira e mercado de trabalho na Editora Abril. Na EXAME, cobre empresas listadas na bolsa e mercado imobiliário.

Continua após a publicidade
Os 'ares de sucessão' por trás do fim dos fundos multimercados da Gávea

Os 'ares de sucessão' por trás do fim dos fundos multimercados da Gávea

Startup brasileira Einship capta R$ 5 milhões com fundo americano

Startup brasileira Einship capta R$ 5 milhões com fundo americano