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ESG

BHP exporta presidente brasileiro para a Austrália e prepara nova fase da Samarco

Depois de liderar a operação brasileira durante a assinatura do acordo de reparação de Mariana, Emir Calluf Filho assume a diretoria global de Ética, Compliance e Direitos Humanos da BHP, na Austrália

Emir Calluf Filho, ex-presidente da BHP no Brasil  (BHP/Divulgação)
Emir Calluf Filho, ex-presidente da BHP no Brasil (BHP/Divulgação)
Pedro Gil

Pedro Gil

Editor do Exame INSIGHT

Publicado em 28 de julho de 2026 às 07:55.

Última atualização em 28 de julho de 2026 às 18:06.

A mineradora anglo-australiana BHP promoveu uma mudança em seu alto escalão. Após comandar a operação brasileira, cargo que ocupava desde 2024, Emir Calluf Filho foi transferido para a matriz, em Melbourne, onde assumiu nas últimas semanas a diretoria global de Ética, Compliance e Direitos Humanos. "Quero levar o tempero brasileiro à BHP global", brinca ao EXAME Insight.

Calluf Filho é advogado especializado em direito empresarial, compliance e governança corporativa. Não à toa, está na BHP desde 2020, em meio às negociações que culminaram no acordo de reparação pelo rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. O executivo ocupou os cargos de diretor jurídico para o Brasil, vice-presidente jurídico para as Américas e presidente da operação brasileira.

Acostumado a assuntos espinhosos, também atuou no grupo J&F durante a fase mais aguda das operações policiais que bateram à porta dos irmãos Joesley e Wesley Batista. Antes disso, passou pela americana International Flavors & Fragrances (IFF) e pela Phillip Morris.

Nova fase... e risco de esvaziamento?

Atualmente, a BHP tem no Brasil quatro executivos em posição de liderança, mas ninguem comandando a totalidade da operação. Desde a saída de Calluf Filho, no inicio de julho, a mineradora está em busca de um novo presidente, que vai responder por toda a América Latina.

Mesmo sem alguém na principal cadeira regional, a BHP reforça que o Brasil segue entre seus principais mercados.

A verdade é que a Samarco, joint venture da empresa com a Vale, nunca mais foi a mesma depois do desastre de Mariana. Em 2015, o rompimento da barragem de Fundão, controlada pela mineradora, matou 19 pessoas e contaminou o Rio Doce. Em 2024, um acordo de reparação entre a empresa e o Supremo Tribunal Federal (STF) foi assinado, com previsão de pagamento de R$ 170 bilhões em indenizações. Desses, R$ 83 bilhões já foram pagos, incluindo R$ 43 bilhões a mais de 800 mil pessoas. Outra ação indenizatória está em curso em Londres.

A Samarco investiu mais de R$ 1 bilhão em novos sistemas de armazenagem e não possui mais barragens. Mesmo assim, a empresa ainda não voltou a operar em plena capacidade. A expectativa é que a companhia retome sua capacidade operacional em 2028.

No ano passado, a Samarco registrou receita líquida de US$ 1,9 bilhão e EBITDA ajustado de US$ 1,1 bilhão, com margem de 57%, impulsionados pela produção de 15 milhões de toneladas de minério de ferro. O volume representa cerca de metade da capacidade histórica da mineradora, que chegou a produzir 30 milhões de toneladas por ano antes do rompimento da barragem.

Enquanto prepara a volta da operação brasileira, a BHP avalia alternativas para recompor o peso da operação brasileira no portfólio. A companhia avalia novas oportunidades em ferro, potássio, cobre e carvão. "Mineração é atividade agressiva, mas não recuamos nas nossas metas ambientais e de diversidade", diz Calluf Filho. "Fazer isso de forma responsável custa muito, mas é possível recuperar ativos".

Calluf Filho falou com exclusividade ao EXAME Insight. Abaixo, os principais trechos da entrevista:

Como a BHP encarou o episódio de Mariana?

Depois do acordo, a companhia entendeu que era preciso garantir a execução de tudo o que havia sido firmado. Uma coisa é assinar um documento; outra é entregar o que foi prometido. Nesse momento, a BHP decidiu criar uma presidência no Brasil e me pediu para assumir essa função para conduzir tanto a reparação quanto a retomada da Samarco e fortalecer a presença da empresa no país.

Os grandes passos foram concluídos. Entregamos todas as casas e pagamos indenizações para mais de 800 mil pessoas. Ainda existe muito trabalho pela frente, especialmente na área ambiental. Há estudos em andamento e outras ações previstas. Mas hoje o cenário está claro. É um trabalho constante entre empresas e poder público. Nos reunimos regularmente com os governos federal e estaduais para acompanhar a execução e fazer os ajustes necessários. É um trabalho de várias mãos.

Como a experiência na J&F influenciou sua chegada à BHP?

Na J&F, passei boa parte do tempo investigando os fatos relacionados ao acordo de colaboração e entregando provas ao Ministério Público. Hoje a gente finge que tudo aquilo não existiu, mas existiu. Foram mais de 200 terabytes de documentos. Quando achei que não existia nada mais complexo, fui para a BHP.

Os dois casos são muito diferentes. Na J&F havia um contexto muito específico de opinião pública. Na BHP encontrei uma empresa que, desde o começo, deixou claro que queria colaborar, reparar os danos e fazer o que considerava correto. Ainda assim, era um caso extremamente complexo, envolvendo governo federal, governos estaduais, Ministérios Públicos, defensorias e atingidos. Era um ambiente muito diferente daquele que vivi anteriormente.

Sua ida para a Austrália reduz a importância do Brasil para a BHP?

Não. O plano para o Brasil não mudou. A Samarco continua recebendo investimentos para voltar a operar com 100% da capacidade. Também existe o projeto de potássio no Canadá, cujo Brasil será um dos principais mercados. Minha mudança está relacionada à minha trajetória profissional e à oportunidade de levar o "tempero brasileiro" para uma função global.

O que significa levar um "tempero brasileiro" para a BHP?

Ainda estou entendendo como posso influenciar uma estrutura global, mas acredito que o executivo brasileiro é muito resiliente. Estamos acostumados a lidar com problemas difíceis, buscar soluções diferentes e persistir quando as coisas não funcionam da primeira forma imaginada. Essa capacidade de resolver problemas é muito importante no mundo de hoje, que enfrenta desafios constantes. Acho que essa é uma contribuição que podemos levar.

Quais são hoje as prioridades da BHP no Brasil?

O plano para o Brasil permanece o mesmo. A companhia continua investindo na expansão da Samarco e mantém interesse em oportunidades que façam sentido dentro do seu portfólio. Hoje, o foco da BHP está em minério de ferro de alta qualidade, cobre, carvão siderúrgico e potássio. Essas são as quatro principais commodities da empresa atualmente.

Qual é sua missão no novo cargo?

Minha missão é ajudar a mover um pouco o ponteiro na área de ética. Hoje atuo em uma área que reúne ética, compliance, investigações e direitos humanos. É uma área importante para a mineração, porque não existe mineração sem uma relação de longo prazo com a sociedade e com os países onde a empresa atua. Poder ajudar a construir essa relação em uma companhia global é uma grande recompensa para mim.

Para quem decide. Por quem decide.

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Pedro Gil

Pedro Gil

Editor do Exame INSIGHT

Jornalista com experiência na cobertura de negócios e finanças. Passou pela redação de Veja, onde foi editor da coluna Radar Econômico. Contato em pedro-b.gil@exame.com

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