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Balanços do segundo trimestre expõem contrastes no setor de turismo

ARTIGO: Aéreas venderam mais, mas viram o lucro despencar com o combustível; hotéis resistiram e plataformas digitais ampliaram resultados

Avião em Guadalupe, no Caribe: custo de combustível representa cerca de 40% do preço da passagem (Carla Bernhardt/AFP)
Avião em Guadalupe, no Caribe: custo de combustível representa cerca de 40% do preço da passagem (Carla Bernhardt/AFP)
Fábio Godinho

Fábio Godinho

Ex-CEO da CVC e da Webjet

Publicado em 23 de agosto de 2026 às 06:00.

Os balanços do segundo trimestre das companhias de turismo de capital aberto com atuação relevante na América Latina revelam contrastes: a receita cresceu na maior parte das empresas, mas lucro e Bolsa contaram histórias diferentes. Nas aéreas, o faturamento avançou e o lucro caiu; hotéis preservaram rentabilidade e plataformas digitais ampliaram receitas e lucros.

Na aviação, a receita cresceu mais que a oferta. Na Latam, a capacidade aumentou 8,9% e o aumento de preços foi de cerca de 17,5%. Na Copa Airlines, a capacidade cresceu 16,5% e a tarifa média subiu 8,7%. Na Delta, a capacidade aumentou apenas 1%, enquanto a tarifa média avançou 12%. Na American Airlines, a receita líquida cresceu 16,3%. Ou seja: as empresas conseguiram cobrar mais mesmo ampliando a oferta.

O choque veio do combustível, cujo custo para a aviação praticamente dobrou no segundo trimestre de 2026. As tarifas subiram, mas cobriram apenas parte desse aumento. O lucro líquido caiu 48% na Latam; 54% na Copa e 88% na American Airlines. No Brasil, a Azul reduziu a oferta em 10,6% e passou de lucro de R$ 1,29 bilhão para prejuízo de R$ 1,04 bilhão.

Na hotelaria, o motor foi outro. Na Hilton, a receita líquida cresceu 6,5% e o lucro, 9%. Na Marriott, a receita avançou 4,8% e o lucro ficou estável. Uma explicação está no perfil das viagens: segundo o IBGE, apenas 14,7% são feitas de avião no Brasil, enquanto carro e ônibus somam 62,6%. Nos Estados Unidos, 8,3% são aéreas e 91,7% feitas de automóvel, segundo a U.S. Travel Association. O peso do transporte terrestre ajuda a explicar a resiliência da hotelaria diante da alta das passagens aéreas.

As plataformas digitais tiveram os resultados mais consistentes. No Airbnb, a receita líquida cresceu 17% e o lucro, 27%. Na Expedia, a receita avançou 14% e o lucro, 166%. Na Booking, a receita cresceu 8% e o lucro, 116%.

As próprias aéreas também disputam a intermediação. A receita da Latam Travel cresceu 62%. Na Azul, a demonstração não separa a receita da Azul Viagens; a linha que reúne carga e pacotes avançou 15%.

Na distribuição presencial, o movimento foi inverso. A receita líquida caiu 6,5% e o prejuízo aumentou 59%, o pior resultado da categoria. No Brasil, as reservas cresceram apenas 4,1%, mesmo com as passagens aéreas 52,4% mais caras em 12 meses até junho e o tráfego doméstico 0,6% maior no trimestre, segundo a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Os números sugerem perda relevante de participação de mercado.

A Bolsa adiciona outra camada. Desde o início do ano até 30 de junho, antes da divulgação dos balanços, Delta e Copa subiram 35% e 29%, enquanto Latam e American Airlines avançaram 7,9% e 17,9%. Pelo conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos, Israel e Irã, o barril do Brent, que estava na região de US$ 60 antes da escalada, chegou a US$ 120 em 29 de abril. Em junho, porém, havia recuado para cerca de US$ 75, ajudando a explicar parte da alta das aéreas. Entre os hotéis, Marriott e Hilton subiram 19,5% e 15%, e a Airbnb avançou 5,4%. Expedia e Booking caíram 9,7% e 16,8%; nesse caso, o mercado refletia dúvidas sobre o impacto da inteligência artificial na busca e na compra de viagens. O segmento mais penalizado foi a distribuição presencial, com queda de 37%, maior que a das demais categorias analisadas.

O alívio do petróleo durou pouco. Em julho, o Brent voltou a superar US$ 100 e, em meados de agosto, estava perto de US$ 90, com o conflito no Oriente Médio ainda em aberto. Combustível, capacidade e disciplina tarifária continuarão definindo o segundo semestre das aéreas.

Para os intermediários, o desafio é estrutural. A inteligência artificial muda a pesquisa e a organização da viagem, mas não elimina a distribuição. As plataformas online conservam força em oferta, tecnologia e vantagem competitiva de preços. A venda presencial precisa justificar sua comissão com curadoria, financiamento e suporte à solução de viagens complexas. Crescer não basta. Vence quem transforma demanda em margem e oferece razão clara para pagar pela intermediação.

BOX | Turismo global com operação na América Latina: 2T26 vs 2T25

Companhia / segmentoReceita líquidaLucro líquidoAção no 1S26
AVIAÇÃO
LATAM+27,6%queda de 48%+7,9%
Copa+25,7%queda de 54%+29,0%
Delta+18,7%queda de 25%+35,0%
American+16,3%queda de 88%+17,9%
Azul+0,7%lucro → prejuízon.a.
HOTELARIA
Marriott+4,8%estável+19,5%
Hilton+6,5%+9,0%+15,0%
DISTRIBUIÇÃO ONLINE
Airbnb+17,0%+27,0%+5,4%
Expedia+14,0%+166,0%-9,7%
Booking+8,0%+116,0%-16,8%
DISTRIBUIÇÃO PRESENCIAL
CVC-6,5%prejuízo aumentou 59%-37,0%
Para quem decide. Por quem decide.

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Fábio Godinho

Fábio Godinho

Ex-CEO da CVC e da Webjet

Executivo com mais de 20 anos de experiência no setor de turismo. Foi presidente de companhia aérea, de redes de hotéis e de companhias de distribuição de produtos turísticos. Atualmente, atua como conselheiro

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