23.12.2025 - Presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, durante cerimônia de transmissão de cargo e posse do Ministro do Turismo, Gustavo Feliciano. Palácio do Planalto. Brasília (DF) - Brasil Foto: Ricardo Stuckert / PR (Ricardo Stuckert / PR/Divulgação)
Repórter
Publicado em 18 de janeiro de 2026 às 12h44.
Em artigo publicado neste domingo pelo jornal americano The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que os bombardeios realizados pelos Estados Unidos em território venezuelano e a captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, em 3 de janeiro representam “mais um capítulo lamentável da contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”.
Lula declarou que a América Latina não será “subserviente a projetos hegemônicos” e defendeu a construção de uma região “próspera, pacífica e plural” como o único caminho compatível com seus interesses.
O presidente reconheceu que chefes de Estado ou de governo podem ser responsabilizados por ações contra a democracia e os direitos fundamentais, mas ressaltou que “não é legítimo que outro Estado se arrogue o direito de fazer justiça”.
Segundo o artigo, ações unilaterais “ameaçam a estabilidade em todo o mundo, desorganizam o comércio e os investimentos, ampliam o fluxo de refugiados e enfraquecem ainda mais a capacidade dos Estados de enfrentar o crime organizado e outros desafios transnacionais”.
Lula afirmou ser “particularmente preocupante” que esse tipo de conduta esteja sendo aplicada à América Latina e ao Caribe, por gerar violência e instabilidade em uma região comprometida com a igualdade soberana entre nações, a rejeição ao uso da força e a autodeterminação dos povos. Ele observou ainda que, em mais de dois séculos de história independente, “esta é a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos”, embora intervenções americanas já tenham ocorrido no passado.
O presidente ressaltou que América Latina e Caribe reúnem mais de 660 milhões de pessoas com “interesses e sonhos próprios a defender” e que, em um mundo multipolar, “nenhum país deveria ter suas relações exteriores questionadas por buscar a universalidade”.
Sobre a situação venezuelana, Lula escreveu que o futuro do país “deve permanecer nas mãos de seu povo” e que essa condição é essencial para permitir o retorno seguro de milhões de venezuelanos, muitos atualmente acolhidos temporariamente no Brasil. Ele reafirmou que o Brasil seguirá trabalhando com governo e população da Venezuela para proteger os mais de 2.100 quilômetros de fronteira e aprofundar a cooperação.
“Somente um processo político inclusivo, conduzido pelos próprios venezuelanos, levará a um futuro democrático e sustentável”, afirmou.
Lula acrescentou que, nesse contexto, o Brasil mantém diálogo construtivo com os Estados Unidos. Segundo ele, Brasil e EUA são as maiores democracias do continente, e unir esforços em investimentos, comércio e combate ao crime organizado é o caminho para enfrentar desafios comuns. “Somente juntos poderemos enfrentar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós”, concluiu.
No texto, o presidente defende que os países da região avancem em uma agenda positiva, voltada a resultados pragmáticos que superem diferenças ideológicas. Entre as prioridades citadas estão a atração de investimentos em infraestrutura física e digital, a geração de empregos de qualidade, o aumento da renda e a ampliação do comércio regional e extrarregional. Lula destacou que a cooperação é vital para mobilizar recursos no combate à fome, à pobreza, ao tráfico de drogas e às mudanças climáticas.
Ele afirmou ainda que grandes potências vêm, ano após ano, enfraquecendo a autoridade das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança. Para o presidente, quando o uso da força deixa de ser exceção e passa a ser regra, “a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas”.
Lula observou que a aplicação seletiva das normas internacionais cria um cenário de anomia que enfraquece tanto os Estados individualmente quanto o sistema internacional como um todo. “Sem regras coletivamente acordadas, é impossível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas”, escreveu.
O presidente também criticou a divisão do mundo em zonas de influência e as incursões neocoloniais em busca de recursos estratégicos, classificando tais práticas como “ultrapassadas e prejudiciais”. Segundo ele, é fundamental que as grandes potências compreendam que “um mundo de hostilidade permanente não é viável” e que, por mais fortes que sejam, não podem basear sua atuação apenas “no medo e na coerção”.